DIRETAS JÁ!

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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

AFINAL, O QUE É A MORTE?







Hoje eu vou falar da morte. Sim, isso mesmo, eu vou falar do que os vivos não têm acesso. Eu vou falar desse fenômeno que é a única certeza que todo ser humano pode ter enquanto estiver vivo. Se a morte adotasse um sistema político, seria a democracia. Pois, não importa o que somos e nem o que cremos, não importa a classe social a que pertencemos, não importa a cor que temos em nossa pele, não importa se acreditamos ou não em um ser superior.





A morte não descrimina ninguém. A morte é a afirmação de que somos, sim, iguais a despeito do que muitas pessoas possam achar ou mesmo querer. A morte nos faz lembrar que existe um limite para a vida. Não é a toa que a maioria das culturas e religiões valorizam bem mais a vida do que a morte. Claro, como podemos valorizar uma coisa que não entendemos bem o que é ou que não sabemos como de fato se processa.





Se a morte é democrática, a vida é uma coisa das mais ditatoriais. Primeiro, porque não nos é dada a prerrogativa de escolher se queremos ou não nascer. Segundo, porque, pela vida a fora, somos levados a fazer coisas que não queremos ou não gostamos. Mas, a morte nos traz uma vantagem. É que é exatamente quando estamos tentando entende-la que passamos a nos conhecer mais e melhor. Talvez a morte seja o maior ensinamento que possamos ter.





A cada vez que alguém próximo a nós morre, temos a oportunidade de revirar a nós mesmos para tentar entender o que está acontecendo. O processo em que choramos nossos mortos é na verdade a busca para tentar entender o que nos acontece. Enquanto velamos, enterramos e sofremos pelos nossos mortos estamos constatando o quanto somos frágeis diante da vida. Sim, é desesperador saber que não mais iremos conviver com aquela pessoa querida.




Deve ser exatamente por isso que sofremos. Pois aquele que velamos não mais sofrerá nesse mundo em que vivemos. Aqueles por quem choramos estam se desligando de nós, estam indo para outras dimensões, outros planos, outros mundos. Na verdade não choramos pelos nossos mortos, choramos por nós mesmos ao constatarmos que a morte é inevitável. Choramos por sabermos que um dia seremos o próximo a estar ali naquele caixote de madeira, prontos a sermos devorados pela terra.





O fato é que falar sobre a morte provoca desconfortos de toda sorte, pois constatamos que até para o que tanto valorizamos, a vida, existe um fim inevitável. É a certeza acachapante de que, não tem jeito, um dia a vida chega mesmo ao fim. É por isso que várias religiões e doutrinas propõem um completo desligamento dessas questões materiais. É por isso que a morte ganha, então, uma dimensão imaterial, filosófica, algo que vai além de nós mesmos, paupérrimos mortais.







Cada povo, cada sociedade, possui uma herança cultural que determina nossa forma de enxergar a morte. O modo como interpretamos a morte, hoje, é consequência da herança que antigas culturas e antigas tradições, além de gerações passadas nos deixaram. A tradição de depositar o corpo material de um ente querido num recipiente fechado, numa posição pré-determinada, e enterrá-lo vem de muito longe. Os nossos antepassados das cavernas já ritualizavam seus morto de forma parecida com o que hoje fazemos.





A construção da identidade coletiva sobre a morte é um dos elementos mais importantes que dá forma a um povo, a sua cultura e a sua tradição. Vejamos alguns rituais de inumação, ou sepultamento dos corpos, praticados por sociedades antigas. No Egito e na Mesopotâmia as pessoas eram enterradas junto com símbolos de suas identidades pessoal e familiar, com pertences, riquezas, roupas e até com suas comidas prediletas. Já os hindus não viam necessidade de conservar qualquer marca.





O corpo, a identidade e a inserção social eram reduzidos às cinzas, que eram lançadas ao vento ou nas águas dos rios. O morto era privado de todos os seus traços identitários. A destruição do corpo, acreditavam os antigos hindus, livraria o morto de seus pecados. Os gregos também incineravam seus mortos. Mas, as cinzas eram guardadas para que, num sentido oposto ao dos hindus, se preservassem as características e a identidade do morto. O ato da cremação enfrentava a morte no que ela tem de igualitária.





Existiriam duas mortes. De um lado, a morte regular, uniforme e anônima. Os comuns eram cremados juntos e depositados numa vala única. Os não tão comuns, os grandes heróis, eram cremados em uma pira e homenageados na cerimônia da boa morte. A morte é um desorganizador social e cultural. A morte pode servir para reestruturar o poder, através da guerra. O fato é que não temos alternativa diante dela. Resta-nos ritualizá-la em nossos cultos para assim, quem sabe, podermos lidar com ela da melhor forma que pudermos.










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Este foi um dos últimos artigos que publiquei: “SOMOS TODOS UM BANDO DE ARAMIS". Neste artigo analiso porque somos avessos à consolidação de nossa democracia. Discuto a contradição de praticarmos procedimentos democráticos enquanto cevamos um ancestral saudosismo de nosso passado ditatorial. Sugiro refletirmos sobre o paradoxo de parte da sociedade usar a liberdade de expressão para pedir um regime que pode acabar com ela. http://www.paraibaonline.com.br/colunista/santos/9920-somos-todos-um-bando-de-aramis---parte-i.html

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