segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Passionalidade que mata.









Agora mesmo, enquanto escrevo essa COLUNA, o jornal da TV mostra mais um caso de uma mulher assassinada pelo ex-marido. A matéria reporta que o homem estava inconformado porque a mulher decidiu não mais viver com ele. O homem não aceitava o fim do casamento. Achava que a mulher tinha outro relacionamento. Para ele, só restava mata-la por ela ter decidido pela separação. Isso aconteceu em Santana do Livramento-RS. Mas, bem que poderia ter sido na Paraíba.





Segundo o estudo “Mapa da Violência”, feito pelo Instituto Sangari e publicado na Revista Exame, a Paraíba é o quarto estado brasileiro em número de homicídios femininos. Ela perde apenas para Espírito Santos, Alagoas e Paraná. Pelo “Mapa da Violência” em cada grupo de 100 mil mulheres paraibanas, seis são assassinadas. Dessas seis, quatro são mortas em casa por homens que elas ou têm ou tiveram algum tipo de relacionamento passional. O “Mapa da Violência” mostra que a diferença entre os assassinatos de homens e mulheres, no Brasil, está no local onde ocorrem. 14.7% dos homens são mortos em casa, enquanto que 40% das mulheres são mortas em casa e por motivos passionais.




E que não se pense que a Paraíba é um caso à parte. Pelo "Mapa da Violência", o Brasil é o 7º país com a maior taxa de homicídios femininos no mundo todo. Ficamos atrás de El Salvador, Trinidad e Tobago, Guatemala, Rússia, Colômbia e Belize. Notem que em aspectos econômicos e políticos o Brasil é mais desenvolvido do que todos esses países, talvez a Rússia possa ter uma situação de desenvolvimento melhor, talvez. Ou seja, teremos que buscar outras variáveis para explicar esse estado de coisas.





Sugiro que busquemos as variáveis cultura e tradição. Mas, alerto desde já, elas não explicam tudo. Ou, dito de outra forma, se cultura e tradição explicam tudo, então nada pode ser explicado e, principalmente, transformado.




 






Mas, vejamos mais dados. Segundo a Secretaria de Estado do Desenvolvimento Social (SEDS) foram assassinadas na Paraíba, entre janeiro e outubro de 2012, 121 mulheres. Desse total, 39 mulheres (ou 32%) foram mortas pela violência doméstica e sexual.




Vejam a gravidade da situação, o tráfico de drogas matou 37 mulheres (ou 31%) desse total de 121 vitimas. Ou seja, o número de homicídios devido à violência doméstica e sexual conseguiu ser maior do que o número em decorrência do tráfico de drogas. Dito de outra forma, não menos grave, das 121 mulheres assassinadas na Paraíba entre janeiro e outubro de 2012, 76 ou foram assassinadas em casa por companheiros ou ex-companheiros ou na rua por envolvimento com o tráfico de drogas.





Pelo balanço da SEDES o crime de vingança corresponde a 16% das mortes. Ainda aparece o crime de latrocínio e as causas não especificadas. Mas, a vingança poderia ser colocada na conta da passionalidade, o que só aumentaria a porcentagem dos homicídios causados pela violência doméstica. A SEDES demonstrou que só na cidade de João Pessoa uma média de 15 novos casos de violência doméstica contra a mulher são registrados por dia em delegacias da capital do Estado. Sabemos que em Campina Grande esse número não é muito diferente.




O balanço da SEDES identificou um dado que só agrava a situação. É que a violência doméstica e sexual vem acontecendo cada vez mais contra mulheres na faixa etária de 18 a 25 anos e diminuindo em relação às mulheres com mais de 30 anos. É que os homens não mais esperam o casamento para se acharem donos de suas mulheres. Eles começam a praticar a violência já no namoro. Meninos que crescem vendo seus pais violentando suas mães tendem a fazer o mesmo com namoradas e futuras esposas.




A violência contra a mulher dentro de casa não é só a agressão física. Ela é também a agressão psicológica e emocional. Ela é a humilhação diária de quem se acha superior por ter, pelo menos na aparência, mais força. A violência contra a mulher não se explica apenas por questões econômicas e sociais. Ela é perversamente democrática, pois atinge todas as classes sociais. Em São Paulo, é nas classes A e B onde as mulheres são mais assassinadas em suas próprias casas.




Se no passado muitos homens alegavam a traição (suposta ou não) de suas esposas para matá-las, hoje virou moda entre os assassinos dizerem que mataram suas mulheres porque elas não mais queriam viver com eles. Quando mulheres cansadas de um histórico de violências de toda sorte resolvem se separar de seus maridos, eles reagem de forma mais violenta ainda. Como eles as vêm como um objeto, como se sentem donos delas, resolvem simplesmente assassiná-las.




É incrível que se pense que uma justificativa tão fútil, covarde e torpe possa sustentar o assassinato de uma pessoa. Porque esses homens, que dizem amar suas mulheres e que não suportariam viver sem elas, preferem matá-las? Se eles acham impossível viver sem suas amadas, porque não se matam para que elas vivam suas vidas sem ameaças, violências e humilhações?




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Este foi um dos últimos artigos que publiquei: “SOMOS TODOS UM BANDO DE ARAMIS". Neste artigo analiso porque somos avessos à consolidação de nossa democracia. Discuto a contradição de praticarmos procedimentos democráticos enquanto cevamos um ancestral saudosismo de nosso passado ditatorial. Sugiro refletirmos sobre o paradoxo de parte da sociedade usar a liberdade de expressão para pedir um regime que pode acabar com ela. http://www.paraibaonline.com.br/colunista/santos/9920-somos-todos-um-bando-de-aramis---parte-i.html

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