sexta-feira, 7 de novembro de 2014

AFINAL, O “BOLSA FAMÍLIA” ELEGE PRESIDENTE?

Muito se falou dos programas sociais do governo federal e do fato deles serem o principal cabo eleitoral nas últimas 3 eleições para presidente. Muito se disse sobre a função eleitoreira e assistencialista do “Bolsa Família”. Mas, e isso é um fato, eu não vi um único candidato da oposição defendendo claramente o fim do “Bolsa Família” ou mesmo propor alterações significativas. Pelo contrário, todos diziam que se eleitos iriam aumentar a rede de atendimento e assistencial social. Todos lembram que ao final do 1º turno, FHC afirmou, com sua intelectualidade elitizada, que Dilma tinha sido bem votada entre os mais pobres e menos inteligentes. Um certo jornalista disse que “enquanto houver ‘Bolsa Família’ o PT não sai do poder”.

No dia 07/10 o Jornal O Globo trouxe uma matéria mostrando que Dilma venceu nas áreas onde o governo mais distribui “Bolsa Família”, o Norte e o Nordeste principalmente, e que Aécio foi mais bem votado onde o IDH é mais elevado. O que pretendia “O Globo”? Mostrar que o capital eleitoral do PT é maior onde há mais pobreza e pouco crescimento e que o capital eleitoral do PSDB sobe onde há mais desenvolvimento. Na verdade, “O Globo” pretendia reforçar velhos estereótipos. Arriscado esse jogo proposto por alguns setores de nossa sociedade, pois, claro, é preciso analisar os dados e olhar com atenção redobrada para nossa realidade. O fato é que a oposição não sabe mais nem o que dizer e nem o que fazer com o “Bolsa Família”.

Literalmente, chegou-se a situação que se correr o “Bolsa Família” pega e se ficar o “Bolsa Família” come. O PSDB não pode defender um programa tido e havido como do PT, mas também não pode ficar contra ele, pois, claro, perde votos. Dilma foi muito bem votada onde a renda per capita dos eleitores é mais baixa e precisa ser complementada, digamos assim, com programas sociais. Apesar de que, o grande cabo eleitoral de Dilma foi o PRONATEC e não o “Bolsa Família”. Aécio teve boas votações aonde a renda per capita dos eleitores vai crescendo. Isso, inclusive, foi explorado pelos marqueteiros, pois se buscou mostrar a candidatura do PSDB como elitista e legitima representantes das classes A e B.

Mapa de votação mostra desempenho dos presidenciáveis nos municípios da Paraíba; nas cidades em vemelho claro, Dilma teve menos de 51% dos votos válidos (Foto: Arte/G1)Isso tudo é bem verdade mesmo. Vejamos que 1.690 mil paraibanos, segundo dados de setembro do TCU, são beneficiados pelo “Bolsa Família”. Se considerarmos que somos 3.900 mil paraibanos, veremos que 43% de nós são atendidos pelo programa. Não é toa que o mapa eleitoral da Paraíba, ao final do 2º turno, estava completamente vermelho a exceção daquele pequeno ponto azul, que atende pelo nome de Campina Grande, ou a “ilha tucana” como a imprensa do Sudeste prefere nos chamar. Na Paraíba, Dilma teve 1.380.988 votos contra 767.916 de Aécio. Quantos dos paraibanos, atingidos pelo “Bolsa Família”, votaram em Dilma não dá para se afirmar ao certo, suponho que a maioria. Mas, onde está o benefício e o custo disso?

Vamos tentar olhar para acima e além das questões meramente eleitorais ou desse bairrismo estúpido que a elite quatrocentona de São Paulo move contra os Nordestinos. Aliás, parabéns ao jogador Hulk que, mais uma vez, teve uma lúcida postura sobre isso. A Paraíba é o 5º Estado no ranking com o maior número de beneficiários no “Bolsa Família”. O TCU somou os inscritos no Cadastro Único, com seus beneficiários (filhos, principalmente), e chegou ao exato número de 1.693.861 paraibanos no programa. O IPEA traçou um perfil básico da família beneficiada pelo programa. Em geral, são famílias compostas por dois adultos, sendo que um deles está desempregado, com uma média de 3 filhos, morando em locais sem saneamento básico, por exemplo.

 
Famílias em que a situação de vulnerabilidade social e econômica é atestada são inseridas no Cadastro Único do “Bolsa família”. O benefício existe, pois propicia a compra de alimentos para os filhos dessas famílias, desde que eles estejam na escola. O IPEA viu que quase 80% dos beneficiados pelo programa usam o dinheiro, que recebem do governo, para comprar alimentos. Isso nas cidades com até 30 mil habitantes injeta dinheiro na economia e propicia algum desenvolvimento. Foi por isso mesmo que o Nordeste foi a única região que manteve o ritmo de queda, dos últimos 10 anos, e conseguiu reduzir o número de pessoas abaixo da linha da extrema pobreza em 2013. É por isso que Dilma ganhou em todos os estados nordestinos.

É isso que os economistas do PSDB não entendem ou não querem entender. Além do assistencialismo, que alimenta os filhos das classes pouco inteligentes, como diria FHC, existe um processo de longo prazo que efetiva alguma distribuição de renda. Qual o custo disso? Esses programas não podem ser eternos, pois a função deles é tirar as pessoas da pobreza. Passados mais de 10 anos de “Bolsa Família” é preciso revê-lo, pois um Estado assistencialista não promove desenvolvimento em sua sociedade. O fato é que os programas sociais do governo federal precisam ser despolitizados. Enquanto a discussão se der na base de quem é o pai e quem é a mãe do “Bolsa Família” ele continuará, para o bem e para o mal, sendo o que ele é.

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AQUI É O POLITICANDO, COM GILBERGUES SANTOS, PARA A CAMPINA FM.

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