terça-feira, 4 de novembro de 2014

VIVANDEIRAS BATEM ÀS PORTAS DOS QUARTEIS – Parte II.

Segundo o Dicionário Caldas Aulete, “vivandeira” é a mulher que acompanha tropas, em marcha, para fornecer aos soldados alimentos, bebidas e outros gêneros. O termo vem do francês “vivandière”, ou seja, a pessoa que negocia víveres em feiras ou arraiais.  Os franceses já diziam que vivandeiras eram as mulheres que pousavam nos acampamentos militares para venderem de tudo um pouco, inclusive o corpo. Na Guerra do Paraguai e na de Canudos o Exercito brasileiro se servia bem das vivandeiras. Historiadores dão conta do importante papel, desempenhado pelas vivandeiras, que acompanharam a Coluna Prestes, pelos mais de 25 mil quilômetros de boa parte do território nacional, quando das lutas contra o governo federal entre 1924 e 1927.

Eu não sei exatamente como ou quem introduziu o termo vivandeiras no noticiário politico. O fato é que entre as décadas de 40 e 60 do século XX passou-se a chamar, ironicamente, claro, de vivandeiras os civis que viviam em volta do Exercito. Ouvi em algum lugar que foi o escritor Sérgio Porto, também conhecido pelo pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, quem criou a metáfora que deu tão certo. E eu não duvido, pois esse tipo de ironia inteligente era típica de Sérgio Porto. Com o fim da 2ª Grande Guerra, fomos obrigados, pela conjuntura internacional, a implantar um sistema que não fosse ditatorial, mesmo que não precisasse ser democrático. Com a queda de Getúlio Vargas passamos 19 anos elegendo presidentes.


Até 1964, quando iniciamos outra etapa ditatorial, era muito comum que atores e partidos políticos, derrotados nas eleições, não aceitassem a legalidade e a legitimidade dos resultados e fossem, literalmente, bater às portas dos quartéis. Entre o 2º governo de Getúlio Vargas, passando pelos anos de Juscelino Kubitschek, e o período de João Goulart setores autoritárias e retrógrados de nossa sociedade pediam sempre para que o Exército interviesse na ordem política e social do país. Forças políticas conservadoras não pestanejavam em pedir que os militares usassem a força para interromper o processo eleitoral, o debate político, as reformas sociais ou mesmo a atuação de um governo constitucionalmente eleito.

Foi por isso que ganharam a denominação, nada honrosa, de vivandeiras dos quartéis. Tal qual as vivandeiras da Guerra de Canudos, estas forças ficavam por ali arrodeando os militares, dispostas a tudo, para que eles dessem cabo de seus interesses. A vivandeira mais conhecida dessa época foi Carlos Lacerda, um dos fundadores da União Democrática Nacional, que foi deputado federal e governador do antigo Estado da Guanabara. Lacerda levava a sério o papel de vivandeira e por isso pagou caro. “O Corvo”, como era mais conhecido, era dono do jornal “A Tribuna da Imprensa”, uma espécie de Revista Veja da época. Através dos editoriais que lançava em seu Jornal, Lacerda exercitava o suprassumo do autoritarismo verde amarelo.
 
Tal qual o PSDB, em relação ao PT, a UDN de Lacerda perdeu 4 eleições seguidas para a estrutura política comandada por Getúlio Vargas de 1949 até 1960. Em todas as situações a UDN não se conformou em perder e foi bater as portas da caserna.  Um ótimo exemplo disso foi quando da campanha eleitoral de 1955 que terminou elegendo JK presidente. Lacerda, prevendo a derrota e ciente de que não a aceitaria, lançou o mais famoso de seus editoriais. Dizia “O Corvo”: “JK não deve ser candidato, se for, não deve ser eleito. Mas, se ele ganhar, não deve tomar posse, e se isso acontecer deve ser deposto pelas Forças Armadas”. Simples assim. Sem meias palavras.

A lógica de Lacerda era fruto de nossa sociedade autoritária. É mais ou menos assim: se eu não posso ser eleito democraticamente, não faz mal, eu me articulo com os militares, promovo um golpe de força e, finalmente, assumo o poder. Lacerda e as vivandeiras da sociedade da época tanto fizeram que conseguiram. Em 1964, os militares golpearam as instituições, cassaram o presidente eleito, e implantaram um regime que prendia, torturava e matava seus opositores. Agora mesmo, vendo as vivandeiras dos nossos dias pedindo que as Forças Armadas intervenham, para depor a presidente Dilma, fico a me perguntar por que, passados 50 anos, ainda somos assim, tão autoritários, tão toscos?
Os dias que antecederam o Golpe de 1964 foram assim. Setores da sociedade iam às ruas pedir que o Exército depusesse João Goulart. O argumento era de que Jango era um corrupto. Vejam que coincidência, a mesma acusação que fazem a Dilma. Hoje, a aparência enganosamente boa de democracia que temos obriga nossas vivandeiras partidárias a outra estratégia. Ao invés de baterem as portas dos quartéis, buscam os tribunais acarpetados de Brasília. Mas, temos as vivandeiras joviais que vão às ruas com suas mentalidades empoeiradas por um autoritarismo tardio. E o que dizer das que ficam pelas redes sociais propagando um sem número de mentiras? Porca miséria essa nossa que não mudamos enquanto o tempo passa bem em frente aos nossos olhos.

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AQUI É O POLITICANDO, COM GILBERGUES SANTOS, PARA A CAMPINA FM.

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Este foi um dos últimos artigos que publiquei: “SOMOS TODOS UM BANDO DE ARAMIS". Neste artigo analiso porque somos avessos à consolidação de nossa democracia. Discuto a contradição de praticarmos procedimentos democráticos enquanto cevamos um ancestral saudosismo de nosso passado ditatorial. Sugiro refletirmos sobre o paradoxo de parte da sociedade usar a liberdade de expressão para pedir um regime que pode acabar com ela. http://www.paraibaonline.com.br/colunista/santos/9920-somos-todos-um-bando-de-aramis---parte-i.html

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