segunda-feira, 24 de novembro de 2014

JANE ALVES E O COMPLEXO DA COR DA PELE

Certa vez, o Jornal Nacional apresentava uma reportagem sobre a questão racial no Brasil. Uma Fátima Bernardes sorridente dizia que, ao contrário dos EUA, não existem, no Brasil, registros de conflitos raciais sangrentos. Tentando validar a ideia, ou o mito, de que somos uma democracia racial, a reportagem mostrava conflitos entre negros e brancos nos EUA e falava dos “Panteras Negras”, aquele grupo que pregava a resistência armada contra a opressão sofrida pelos negros. O Jornal Nacional mostrava brasileiros de diferentes raças conversando alegremente. A câmera se voltava para Fátima Bernardes para que ela dissesse, aliviada, que enquanto o preconceito racial dos americanos só aumentava, o nosso diminuía a cada dia.

O argumento era que os negros brasileiros ocupavam cada vez mais cargos públicos e privados e que até já existia uma revista de moda dedicada à raça negra. Pasmem! O Jornal Nacional esqueceu a histórica luta do Quilombo dos Palmares contra a escravidão. O jornalismo global parecia desconhecer os conflitos gerados pela perseguição do Estado brasileiro aos que se manifestavam, através do Candomblé e da Umbanda, na Bahia e em outros estados, na primeira metade do século XX. É por isso que sempre tenho ao alcance da mão, em aulas de História do Brasil, a obra “Raízes do Brasil”, onde Sérgio B. de Holanda ironiza a mal afamada passividade de nosso povo que, mesmo tiranizado, agiria de forma cordial para com seus opressores.
 
O racismo nos EUA é explícito. Lá, ainda existem aqueles restaurantes divididos em 3 pavimentos para que negros, brancos e hispânicos não se misturem.  Imagine o que uma brasileira, de pele negra e cabelo e olhos claros, faria para comer num local desses? Já nós, preferimos pensar que, por aqui, não existe esse tipo de pré-conceito. Aqui mesmo, no Nordeste, é comum se achar que só existe racismo lá pelo sul do país. Mas, eis que a realidade vem sempre nos tirar de nossa zona de conforto. Recentemente, dois agentes de Trânsito do DETRAN do Ceará receberam cartas, com xingamentos e ofensas racistas, após rebocarem carros que estavam estacionados em locais proibidos. A suspeita de ter escrito as cartas é Jane Cordeiro Alves.

Revoltada por ter seu veículo rebocado, ela foi à sede do DETRAN para entregar três cartas, todas de conteúdo racista. Pobre Jane, ao invés de fazer sua defesa para retirar a multa, que lhe foi aplicada, preferiu gerar prova contra si mesma. Numa das cartas, Jane Alves diz: “Vou me referir ao da cor da noite sem estrelas, que dirigia o reboque: hoje tu vive como gente, convivendo com gente, por causa da maldita princesa Isabel”. Coitada, além de tudo, Jane desconhece o processo histórico. E ela continua: “hoje, tu viveria no tronco, levando chicotada (...) tem inveja de mim porque sou branca. Se tivesse vivendo na época dos meus bisavós (que eram senhores portugueses, donos de escravos) estaria lambendo o chão que eu piso”.

O que mais me assusta é a possibilidade de haverem muitos (e muitas) “Jane Alves”, espalhados por aí, compartilhando dessa mentalidade escatológica. Claro, Jane deverá responder por crime de injúria, racismo e desacato. Mas, eu tenho uma sugestão. Não acho que Jane deveria ser presa. Penso que a melhor punição para ela seria limpar o chão por onde aqueles, que ela xingou, passam todos os dias. Não sei se seria educativo, mas, com certeza, seria a melhor punição que ela merece e precisa. Esse fato não é isolado, ele não é exceção. Ele é a regra na ponta do iceberg, pois somos criados, educados, para reproduzir essa visão racista, ao mesmo tempo em que desenvolvemos os tais jeitinhos para conviver com o que nos desagrada.

Lembro-me de uma professora, do ensino fundamental aqui mesmo em Campina Grande, que foi repreendida pelos pais de seus alunos, e pela direção de sua escola, por ter pedido às crianças para refazerem um trabalho sobre a questão da cor da pele. Numa tarefa, as crianças deveriam pintar bonecos com a cor da pele. Todas pintaram com cores bem claras, inclusive 3 crianças negras que lá estudavam. A educadora agiu para mostrar que não existe uma única cor de pele. Foi repreendida e quase demitida. Dione do Nascimento, estudante do curso de Pedagogia da UFPB, constatou que 92% das crianças que estudam no ensino fundamental, da rede pública do Estado da Paraíba, apresentam um comportamento racista. A pesquisa foi algo bem simples.

Apresentava-se uma boneca branca e outra negra às crianças. 92% delas, independente da cor de pele, escolheram a boneca branca. Porca miséria essa nossa. Não nos consideramos racistas, mas agimos como tal o tempo todo. Se tivéssemos feito uma revolução para acabar com a escravidão, hoje não agiríamos como Jane Alves, que em seus delírios se vê herdeira de senhores escravagistas. Esse é o nosso problema, somos pacíficos demais, cordiais demais e conscientes de menos.

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AQUI É O POLITICANDO, COM GILBERGUES SANTOS, PARA A CAMPINA FM.

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