segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

AS FAMÍLIAS, O PODER, A DEMOCRACIA.

Em agosto de 1960, Jânio Quadros renunciou a presidência da República num ato surpreendente, que desencadeou uma séria crise, e que terminou contribuindo para o desenrolar do golpe civil-militar de março de 1964. Por via das dúvidas, Quadros levou consigo a faixa presidencial ao sair de Brasília. É que a renuncia era, na verdade, uma tentativa de golpe para que ele acumulasse mais e mais poder. Quadros era tão apegado ao poder que não queria dividi-lo com mais ninguém. Em 1985, João Figueiredo, o último general/presidente do regime militar, se recusou a passar a faixa presidencial ao civil José Sarney. Ele saiu por uma porta lateral do Palácio do Planalto dizendo em alto e bom som: “eu quero que me esqueçam”.

Na semana passada, Roseana Sarney renunciou ao cargo de governadora do Maranhão faltando apenas vinte dias para que o governador eleito, Flavio Dino (PC do B), tome posse. A governadora disse que renunciou para cuidar da família e da saúde. Certo, são justificativas nobres. Mas, não dava para esperar 20 dias para se dedicar em tempo integral a causas tão generosas? O que estaria por trás disso? O que teria levado um membro do clã Sarney, conhecido pelo apego aos cargos públicos, a renunciar? Elementar. A primogênita do clã Sarney não quis enfrentar o desconforto de passar a faixa, de governador do Maranhão, a um adversário que impôs uma vitória maiúscula, ainda no 1º turno, ao poderoso grupo comandado pelo ex-presidente José Sarney.

Ao renunciar, Roseana Sarney permitiu que o presidente da Assembleia Legislativa do Maranhão, Arnaldo Melo, aliado dos “Sarneys”, assumisse o Palácio dos Leões para, em poucos dias, fazer tudo aquilo que sempre quis e nunca teve como. Um detalhe nisso é que o vice-governador do Maranhão, Washington Luiz, já havia renunciado, em novembro de 2013, para se tornar conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. Um cargo vitalício, bem mais atrativo do que o de vice-governador.

Políticos não costumam renunciar por motivos nobres. Desistir de ter poder, no Brasil, é prova de mesquinharia politica e/ou do cumprimento da legislação eleitoral para os governadores, que não podem se candidatar a reeleição, e buscam uma vaga no senado. Este ano, sete governadores renunciaram para concorrerem ao senado. Foi o caso de Sérgio Cabral (RJ), Antônio Anastasia (MG) e Wilson Martins (PI). E teve o Siqueira Campos (TO) que renunciou para que seu filho disputasse o governo. Ou seja, ele se afastou para ampliar sua estrutura de poder e beneficiar o clã que comanda. No Maranhão, o que seria uma prova de desapego ao poder foi à constatação de que as famílias poderosas não sabem lidar com procedimentos democráticos.

O ato em que o governante, que está saindo, entrega a faixa para o que acabou de ser eleito é, sim, simbólico. Mas, este simbolismo é a forma que as democracias modernas encontraram para caracterizar a transição de e no poder. Até as revoluções burguesas o símbolo do poder era a coroa. Uma vez colocada na cabeça do rei, só saia para que ele fosse enterrado, às vezes nem isso. As democracias substituíram a coroa por uma faixa que passa de governante em governante. Respeita os formalismos democráticos quem passa a faixa para seu sucessor independente se aliado ou adversário. Negar-se fazer isso, usando o artificio torpe da renuncia, expõe a mentalidade pouco republicana de um governante.

Roseana Sarney mostrou o quanto mesquinha, antidemocrática e antirrepublicana é sua forma de fazer politica. Renunciar, para não ter que passa a faixa para Flavio Dino, foi à mãe de todos os desrespeitos para com a decisão, democrática, do eleitor maranhense. Em democracias consolidadas o governante que está saindo não cogita atitude diferente de passar a faixa para seu sucessor. Imagine se um Barack Obama, um David Cameron ou mesmo um Nicolas Sarkozy se permitiriam tamanha patuscada? Dito de outra maneira, esse negócio de não querer passar a faixa, ou seja, não querer promover a transição do poder é coisa para um Vladimir Putin, um Silvio Berlusconi ou um Hugo Chávez da vida. Isso é coisa de ditador travestido de democrata.

Urdir um plano de renúncia, justificando que se vai “cuidar da família”, para não ter que ver seu adversário assumindo o cargo, que se teve como seu, é mesmo típico dessa gente que vê o poder como o grande negócio da família. Se você está se sentido aliviado por não viver no Estado onde o clã Sarney manda e desmanda desde a década de 60, saiba que em vários estados da federação existe um clã desses que privatizou o poder executivo em proveito próprio. São os Magalhães, Maias, Alves, Acciolis, Mellos, Bezerras. Aqui, na pequena e heroica Paraíba, temos pelo menos três dessas famílias que nunca usaram o expediente da renuncia, só porque ainda não tiveram que entregar a faixa para um adversário.

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AQUI É O POLITICANDO, COM GILBERGUES SANTOS, PARA A CAMPINA FM.

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Este foi um dos últimos artigos que publiquei: “SOMOS TODOS UM BANDO DE ARAMIS". Neste artigo analiso porque somos avessos à consolidação de nossa democracia. Discuto a contradição de praticarmos procedimentos democráticos enquanto cevamos um ancestral saudosismo de nosso passado ditatorial. Sugiro refletirmos sobre o paradoxo de parte da sociedade usar a liberdade de expressão para pedir um regime que pode acabar com ela. http://www.paraibaonline.com.br/colunista/santos/9920-somos-todos-um-bando-de-aramis---parte-i.html

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