sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O QUE VOCÊ PREFERE UM TÉCNICO OU UM POLÍTICO?

Reza a lenda que João Saldanha, técnico de futebol responsável pela montagem da seleção brasileira de 1970, disse que preferia treinar onze craques indisciplinados a ter que aturar onze pernas de pau bem comportados. João Saldanha, conhecido pelas polêmicas que protagonizava, respondia a uma provocação de Zagallo que, ao assumir a seleção tricampeã no México, teria dito que encontrou um monte de craques indisciplinados e fora de controle. Num tempo em que não era moda ser politicamente correto, João Saldanha e Zagallo bateram boca durante algum tempo por nada, pois não importava se o jogador era ou não um bom moço, o que interessava é que ele jogasse muito bola.

Eu lembrei essa história por causa da discussão que toma conta dos processos de transição de governo. Tenho visto políticos, jornalistas e analistas discutindo sobre se é melhor montar um governo de técnicos ou um governos de políticos. As pessoas gostam de elogiar governos que se inauguram com perfil técnico. Os partidos e políticos estam tão desgastados, por um cenário onde a corrupção é regra, que se tende a achar que governos sem políticos é interessante, como se isso fosse possível. Mas, será que na montagem de um governo se deve considerar esse dilema? O governo ideal não seria aquele que se cerca de políticos com formação técnica e de técnicos que entendem que é na dimensão política que se dá a ação governamental?

Tenho visto governos enfrentarem problemas por não conseguirem fazer com que seus políticos e seus técnicos se entendam. O governador Ricardo Coutinho que o diga, pois a alguns problemas de seu primeiro ano de governo foi fruto desse falso dilema. A tentação de oferecer um produto diferenciado à população tem sido maior do que a necessidade de se conduzir a coisa pública com decisões políticas. O prefeito de João Pessoa, Luciano Cartaxo, usou esse argumento para escolher muitos de seus assessores. No início de sua administração, Cartaxo dizia: “Estou montando um governo com perfil eminentemente técnico. Até os nomes políticos têm que entender às necessidades das pastas para as quais foram indicados”.

 
Certo. O discurso é bem feito, apesar da irritante obviedade. Mas, na prática Luciano Cartaxo terminou tendo problemas na medida em que um eminente técnico não teria obrigação de entender das coisas da política. De fato o político que ocupa uma secretaria, apenas para atender demandas partidárias e/ou fisiológicas, pode vir a ter um péssimo desempenho por não ter a menor ideia de como funciona a máquina de sua secretaria.

A radiografia do governo de Cartaxo nos dizia algo. Quando tomou posse ele indicou 29 nomes para compor seu governo. Desses, 10 eram ligados ao PT, 09 foram indicados pelo ex-prefeito Luciano Agra e os outros 10 atendiam a essas necessidades técnicas. Cartaxo queria ter um governo triangular dividido entre políticos de sua cota, da cota de seu principal aliado e os que são tidos como técnicos, ou seja, despolitizados. Se Cartaxo conseguiu coordenar esses três setores tão diferentes é algo a se verificar. Mas, eu duvido que uma equipe montada dessa forma possa se manter coesa. Para não ficar espremido entre os três lados do triângulo, Cartaxo terminou fazendo muitas mudanças em seu governo. Claro, ele teve que atender demandas eleitorais.

O prefeito de Campina Grande, Romero Rodrigues, anunciou, em janeiro de 2013, uma equipe com um perfil mais técnico do que politico. Vejam que quando ele anunciou a equipe da Secretaria de Saúde destacou o perfil técnico dos que estava nomeando. Romero afirmava não haver interferência política ou partidária na escolha dos nomes para a saúde. Dizia ele: “Todos os escolhidos foram por critérios estritamente técnicos. Em momento algum questionei em quem estas pessoas votaram nas eleições”. Certo. Importa que os técnicos tenham bom desempenho. Importa que eles atuem libertos de ingerências políticas externas, de interesses econômicos privados e até mesmo daquelas influências familiares que tanto atrapalham.

Mas, fundamentalmente, importa que o técnico entenda que para além e acima dele e de sua visão científica e/ou acadêmica existe a dimensão política onde escolhas precisam ser feitas para beneficiar pessoas, para gerar bem estar para o cidadão. Interessa, ainda, que os políticos entendam que o conhecimento técnico deve ser utilizado para gerar bem estar e não para beneficiar este ou aquele interesse particularizado. Se o caro ouvinte quer saber o que eu prefiro, digo que entre o craque desequilibrado e o bom moço perna de pau eu fico com o craque de bola que é um bom moço. Eu sei que é difícil encontrar, mas não é impossível. Basta saber procurar.

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