sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A MINHA FILHA NÃO GOSTA DE POLÍTICA




Minha filha me perguntou o que eu daria a ela no dia das crianças. Como ela vive dizendo que é uma pré-adolescente, eu disse que não daria nada, pois o dia era das crianças. Eu disse que no dia do pré-adolescente lhe daria um presente. Ela argumentou que esse dia ainda não foi criado. Vi, então, que minha filha está deixando de ser criança. Percebi que o dia da criança existe para que lembremos que elas são eternas.



Minha filha diz que não gosta de política. Ela reclama que eu só falo de política e já me questionou porque é que a COLUNA POLITICANDO só fala dessa “coisa chata que é a política”. Eu já elaborei várias teses para explicar a minha filha (e algumas outras pessoas, candidatos inclusive) que a política é uma coisa só nossa, dos animais racionais, que a política existe para, junto com outras coisas, dar razão a nossa existência.



O mais engraçado é que minha filha diz não gostar de política, mas ela me enche de perguntas sobre a política eleitoral. Domingo passado ela fez questão de ir até a urna comigo, apesar de que eu impus a ela um voto de silêncio. É que a democracia pertence ao mundo das crianças. Já as ditaduras e os autoritarismos de toda sorte pertencem ao mundo dos adultos. Minha filha diz detestar política, mas ela pratica a exaustão o oxigênio da política que é a capacidade de argumentar.



Certa vez ela disse que “queria tirar a pilha do Jornal Nacional”. É que ela queria que eu não assistisse o jornal para brincar com ela e eu dizia que precisava assisti-lo para me informar.



Tal qual os políticos experientes, minha filha não perde a oportunidade de se sair com uma boa resposta. Um dia eu disse que “ia chamar a Supernanny para dar um jeito na teimosia dela”. Ela não se fez de rogada e disse que: “Quem está precisando da Supernannny é você e minha mãe que só hoje já brigaram duas vezes”.



Minha filha gosta, como alguns políticos, de dar respostas diretas. Quando eu perguntei o que ela iria fazer com minha máquina calculadora, ela respondeu de bate-pronto: “somações”. Outra vez ela justificou da seguinte maneira, quando eu perguntei por que a aula tinha acabado tão cedo: “é que estava goteirando na escola, papai”. Ao ver a mãe dela saindo de casa para uma festa, Clara assim a definiu: “mamãe é empiriquitosa”.



Em termos de questionamento, impagável foi o dia em que minha filha resolveu questionar o próprio Papai Noel. É que ela tinha enviado uma carta para ele pedindo uma bicicleta. Papai Noel, do alto de suas atribulações, se confundiu. Ao invés de trazer uma bicicleta, o bom velhinho trouxe uma boneca. Clara, escreveu mais uma carta reclamando, dizendo que: “Papai Noel, eu pedi uma bicicleta, mas você trouxe uma boneca”.  Mais um pouco e ela denunciava Papai Noel ao PROCON.




Certa vez, Clara perguntou a mãe dela o que é ser gay. Minha esposa disse, para simplificar, que gay é um homem que gosta de outro homem. Minha filha disse, concluindo: “Então papai é gay, porque ele gosta de meu irmão e ele é homem”.



Outro dia a mãe de Clara disse que iria sair para trabalhar e que só voltaria à noite. Clara até não reclamou, mas saiu-se com a seguinte pérola: “Mamãe eu queria que você fosse idosa para não precisar trabalhar e ganhar dinheiro sem sair de casa”.



Assim como os candidatos, Clara gosta de dar respostas malucas para perguntas que ela não sabe a resposta. Um dia lhe perguntei se ela sabia por que só estava aparecendo metade da lua e ela disse que tinha sido um cachorro que tinha comido a outra metade.



Clara não gosta de política, muito menos de políticos, mas sabe interpretar interesses que não ficam claros. Um dia ela me perguntou se eu ia para o aniversário da amiguinha dela. Eu disse que não, mas que queria que ela trouxesse muitos doces para mim. Clara foi direta na interpretação dela: “papai, você quer comer os doces do aniversário de minha amiga, mas não quer ir para a festa”. Bem vinda ao mundo real, minha filha, os adultos são assim mesmo.



Minha filha não é versada só em política. Ela entende de filosofia também. Alguns dias depois que a bisavó dela faleceu ela racionalizou a morte da seguinte maneira: “o ruim de morrer é que agente não pode ficar mais vivo”. Eu sou suspeitíssimo para falar. Mas, convenhamos, essa é a melhor definição que se tem para a morte. Minha filha definiu em um minuto o que a humanidade tenta fazer a pelo menos 15 séculos.



Um dia, querendo acabar com uma discussão de adultos insanos, minha filha disse que “quanto mais o pinto pia, mais a pia pinga”. Simples assim. Ainda bem que minha filha não gosta de política. Se ela gostasse, imaginem o moído que ia ser.




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Este foi um dos últimos artigos que publiquei: “SOMOS TODOS UM BANDO DE ARAMIS". Neste artigo analiso porque somos avessos à consolidação de nossa democracia. Discuto a contradição de praticarmos procedimentos democráticos enquanto cevamos um ancestral saudosismo de nosso passado ditatorial. Sugiro refletirmos sobre o paradoxo de parte da sociedade usar a liberdade de expressão para pedir um regime que pode acabar com ela. http://www.paraibaonline.com.br/colunista/santos/9920-somos-todos-um-bando-de-aramis---parte-i.html

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