quinta-feira, 7 de novembro de 2013

VOCÊ SABE COM QUEM ESTÁ FALANDO?








No último dia 30 de outubro, o tenente-coronel José Dirceu Pereira, da Polícia Militar do Espírito Santo, dirigia seu possante carro quando se deparou com uma dessas costumeiras operações policiais para fazer cumprir a Lei Seca. A cena foi filmada por câmaras instaladas numa das viaturas da equipe da Polícia Militar que realizava a blitz. O oficial, sentado ao volante, se recusou a cumprir a lei da qual, inclusive, deveria ser um defensor.




Não se pode afirmar que o oficial José Dirceu tenha ingerido bebida alcoólica e nem de onde ele vinha e nem para onde ia. Não se sabe se ele detinha algum tipo de irregularidade em seus documentos ou no seu veículo. O fato é que o oficial se recusou a obedecer à ordem policial de parar o carro e dele sair. As imagens, que ganharam a mídia nacional, mostram que o oficial tentou escapar da blitz, acelerando seu carro, quando percebeu que ia ser parado pelos policiais.




Estes tiveram que se colocar a frente do carro do oficial. Quando finalmente parou, o oficial, que estava sem cinto de segurança, apontou o dedo indicador para o policial e foi logo dizendo em tom ameaçatório: “você sabe que eu sou coronel da polícia, não é?”. O policial, treinado que é para situações esdrúxulas com essa, disse de forma protocolar: “Eu não conheço o senhor. Quero sua identidade e o documento do seu carro”. O oficial José Dirceu sai do carro, sempre com atitude intimidatória, e dá-lhe uma carteirada. Ele não apresentou os documentos solicitados pelo policial. Limitou-se a mostrar a carteira funcional, onde sua patente de tenente-coronel é especificada. O que ele quis foi deixar claro, através da carteira, sua superioridade hierárquica.




Ele queria, também, dizer que, por ser da corporação militar, não deveria ser enquadrado por ela. Na verdade, o que o oficial José Dirceu fez foi praticar a velha, e não tão boa, instituição informal do “você sabe com quem está falando?”. E, como nada é tão ruim que não possa piorar, o oficial ainda ligou, depois de abandonar a cena do crime que protagonizou, para um major da PM, seu amigo, para que este desse um jeitinho, bem brasileiro, de deixar tudo por isso mesmo.




Essa história me lembrou a carteirada, de 2006, do general da reserva Francisco Roberto de Albuquerque que apresentou sua identidade funcional para interromper a decolagem de um avião no aeroporto de Viracopos na cidade de Campinas.  O avião já estava em procedimento de decolagem, com as portas fechadas e taxiando na pista. Foi dada uma ordem à torre de controle para que a aeronave fosse parada, pois a companhia não poderia deixar de embarcar um oficial do Exército Brasileiro.



Lembrei, ainda, do dia em que a mãe, de um assessor jurídico de um relevante ator político paraibano, me perguntou se eu sabia com quem estava falando como forma de me convencer a deixa-la furar uma fila que eu enfrentava há mais de 40 minutos.




 




A Corregedoria da PM do Espírito Santo move Inquérito Policial Militar contra o oficial José Dirceu. Em sua defesa, ele alega ter sofrido abordagem indevida, pois só um oficial de patente igual ou superior à sua poderia ordenar que ele exibisse seus documentos. O oficial ainda move um processo contra o sargento que o abordou na blitz. Ele não só acha que está correto, como ainda quer punir aquele que teria desrespeitado a base de uma instituição coercitiva, i.e., hierarquia e disciplina.




Sempre que lido com essas histórias, lembro-me do questionamento do antropólogo Roberto DaMatta que em seu clássico e magistral livro “Carnavais, Malandros e Heróis” questiona: “Mas, afinal, o que faz o Brasil ser tão brasil?”.  DaMatta diz que cada vez que alguém dá uma carteira e pronuncia a frase “você sabe com quem está falando?”, está querendo fazer a distinção entre o individuo e a pessoa. Ele afirma que a ideia é separar radical e autoritariamente as posições sociais.




Quando se pergunta “você sabe com que está falando?” se quer demarcar uma diferenciação social. A ideia é mostrar que o nome, a função, a posição social e econômica, são condições suficientes para garantir sempre direitos, nunca deveres. DaMatta diz que o “sabe com quem está falando?” é algo pernóstico e antipático e um modo indesejável de ser brasileiro já que revela de maneira velada os mais violentos preconceitos que temos.




O “sabe com quem está falando?” é a constatação brutal de nossa desigualdade social. Ao contrário da cordialidade do jeitinho brasileiro, que chega ser carinhosa, este é um expediente autoritário, excludente, do qual, como brasileiro, só posso me envergonhar. O “sabe com quem está falando?” é um mecanismo escuso que usamos não para driblar a lei, como é próprio do “jeitinho brasileiro”, mas para nos colocarmos acima e além dela.




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AQUI É O POLITICANDO, COM GILBERGUES SANTOS, PARA A CAMPINA FM.









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