DIRETAS JÁ!

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sexta-feira, 20 de junho de 2014

MAS, AFINAL, CHICO É CHICO.



Ontem, 19 de junho, aquele que foi considerado, por Millôr Fernandes, a única unanimidade nacional completou 70 anos de vida e 50 anos de carreira artística.  Chico Buarque chega aos 70 anos tão lúcido, produtivo e criativo como a 30 ou 40 anos atrás. Eu até discordo de Millôr Fernandes. Chico Buarque não é uma unanimidade nacional, até porque, como diria Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra. Chico é um clássico da musica, da literatura, da política e, porque não, do futebol. O caro ouvinte sabe o que é um clássico? O clássico é o que consegue ser atemporal, sem ser anacrônico, que agrada gerações sem precisar mudar sua essência. Um clássico consegue pairar acima das opiniões. Enfim, clássico é algo que fica.

Clássico é aquilo que reencontramos depois de muito tempo para rever, reinterpretar e redimensionar para o momento em que vivemos. O clássico cabe em muitos presentes e não só naquele em que foi feito. Eu tenho muitos clássicos, e um deles é Chico Buarque. Talvez por medo de vulgarizar ou por algum tipo de elitismo intelectual que, confesso, termino tendo, eu não escuto com frequência as músicas de Chico Buarque. Já algum tempo, tenho lido muito as obras de Chico e tenho lido muito sobre ele. Uma das melhores formas de revisitar esse clássico da música e da literatura brasileira é através da série de DVD´s que, de forma um tanto quanto pretensiosa, quer contar vários aspectos da vida e da carreira de Chico Buarque.

Cada DVD aborda Chico Buarque e um tema. Então temos, “Chico e o samba”; “Chico e a política”; “Chico e as mulheres”; “Chico e o futebol”; “Chico e o teatro”; “Chico e Tom Jobim” e por aí vai. Aliás, foi Tom Jobim que disse que Chico é o sucessor de Noel Rosa. E eu diria mais: além de sucessor, ele é o continuador de tudo aquilo que Noel não pode fazer por ter morrido tão jovem. Chico reencarna e representa Pixinguinha, Lupicínio Rodrigues, Nelson Cavaquinho, Cartola, Ari Barroso, Dorival Caymmi, etc, etc, etc. Chico Buarque foi formado na tradição do virtuosismo letrístico e musical. Foi Chico que sistematizou, ou adequou, a tradição do samba, de todos esses compositores, ao que se convencionou chamar de Música Popular Brasileira (MPB).


Chico foi fundamental para a MPB, pois soube recolher elementos no que de melhor tivemos na música, desde os chorões e Chiquinha Gonzaga, passando por Villa Lobos, até Vinícius de Morais e o próprio Tom Jobim. Chico soube converter isso tudo numa produção inovadora e absolutamente bem estruturada. Foi ele que inaugurou um novo tipo de arte musical, na década de 60, ancorado na estética bossa-novista que ainda está por ser definida. Chico se autodefine, num desses DVDs, como um letrista. E é isso mesmo! Chico é, por tudo que consegue representar e por ele mesmo, o maior letrista da MPB. Ele é um caçador de palavras, um arqueólogo dos grandes achados lingüísticos.

Ninguém como ele para, com as palavras certas, dizer as coisas certas. Na música “Tanta Amar”, Chico diz: “amo tanto e de tanto amar, acho que ela é bonita”. Ou seja, não importa o que seja a mulher, ele a ama e todas as questões se encerram ali. Em “O meu amor”, ele diz “desfruta do meu corpo, como se o meu corpo fosse a sua casa”. Vejam como se diz tudo sobre uma relação sexual com palavras tão simples. Isso é fácil? Claro que não. Por isso, que só mesmo um Chico Buarque para fazê-lo. Chico foge do óbvio e nos força a conhecer as coisas. Quem mais usaria gelosia ao invés do usual janela? Foi Chico que me ensinou a usar corretamente um dicionário ao dizer que se divertia em buscar sinônimos num dicionário chamado “Caldas Aulete”.

E pouco importa os que tentaram desqualificá-lo por sua acentuada e autoreconhecida desafinação. Mesmo sendo desafinado, Chico sabe como ninguém construir belas canções, onde letra e música se entrelaçam de um jeito que até parece ser fácil fazer. Hoje, relendo a obra de Chico, consigo entende mais e melhor sua importância política. Muito antes de a ecologia virar moda, nos discursos fáceis de uma intelectualidade politicamente correta, Chico já praticava o ativismo verde. O caro ouvinte pode, por exemplo, ouvir a música “Os homens vão chegar”, onde Chico diz aos passarinhos para tomarem cuidado com os desatinos do homem em relação à natureza. Em “Bye, Bye, Brasil” Chico denuncia a devastação da floresta amazônica.

Talvez, já se tenha dito tudo sobre Chico. Talvez eu esteja sendo redundante. O fato, é que escrevo para significar a importância de Chico Buarque e de sua obra para a cultura nacional. Já que tanto falamos de golpe e ditadura por que não ouvir músicas como “Vai Passar”, “Cálice” e “Roda Viva”. E que tal ouvir Chico falando dos sentimentos em “Olhos nos Olhos”, “Tanto Amar”, “Carolina”, “Trocando em Miúdos”? É por isso tudo que eu “prescrevo” o clássico Chico Buarque como um remédio para os nossos dias. Parodiando o próprio, eu indico: beba Chico, cheire Chico, fume Chico, use Chico, injete Chico na veia; não tem contra indicação. Pode se viciar nele, só vai fazer bem a você, caro ouvinte, como faz a mim a mais de 30 anos.

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Este é o primeiro disco do Pink Floyd. Já começou assim mesmo: psicodelizado, distorcido, viajadão, cheio de efeitos! É daqueles discos para ouvir vez por outra acompanhado de algo que te dê alguma distorção mental. Aliás, o Floyd começou muito bom, esteve uma época fantástico, e terminou bom! Neste disco temos Syd Barret com Roger Waters, Rick Wright e Nicky Mason, sem David Gilmour, ainda.

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