quarta-feira, 11 de junho de 2014

SIM, EXISTE UMA VERDADE!


Friedrich Nietzsche foi um filósofo alemão que viveu na segunda metade do século XIX. Dentre outras coisas, ele se dedicou a discutir sobre o que é a verdade. Foi assim que ele pronunciou a famosa frase: “A verdadeira questão é: quanta verdade consigo suportar?” Em sua obra “Sobre a verdade e a mentira no sentido extra moral”, Nietzsche questionou: “mas, como ainda continuamos a perseguir o que seja a verdade, se ela não seria apenas nossa teimosia em sustentar conveniências pessoais ou coletivas?”. Nietzsche morreu sem responder o que seria, então, a verdade. Se Nietzsche, que era Nietzsche, não conseguiu encontrar uma resposta satisfatória para o que é verdade, o que dirá nós, brasileiros, que mal conseguimos diferenciar verdades de mentiras.

Desde que a Comissão Nacional da Verdade foi instituída, em maio de 2012, que a pergunta que não quer calar é “o quanto de verdade estamos dispostos a suportar?”. Dito de outra forma, o que faremos com nossas verdades? Como lidaremos com as verdades que se tem descoberto através do trabalho da CNV e das comissões estaduais? As verdades estam vindo à tona. A questão é: para quê e para quem elas estam saindo dos arquivos e das memórias? Alguns meses atrás, o tenente-coronel reformado Paulo Malhães, que foi agente do Centro de Informações do Exército durante a ditadura militar, confessou ter torturado presos políticos e ter participado de operações que faziam corpos sumirem.

Malhães tornou verdade o que tínhamos como suspeitas ou hipóteses. Alguns dias depois de seu depoimento, Malhães foi assassinado. Membros da Comissão Estadual da Verdade carioca suspeitam que o que houve foi à famosa “queima de arquivo”. O fato é que Malhães teve importante papel como agente da repressão politica durante a ditadura militar. Malhães era detentor de muitas verdades, de informações e fatos que ocorreram enquanto o governo militar se dedicava a reprimir seus inimigos. Eu não sou adepto das teorias conspiratórias, mas também não acredito em coincidências e em explicações baratas. Ao que tudo indica, Malhães foi queimado por ter se tornado um arquivo que falava demais.

Parece crível que Malhães tenha sido silenciado a mando de quem não suportava mais ver suas verdades vindo à tona. Pior, foi que seu “silenciamento” serviu como uma espécie de recado para aqueles que ainda pretendem contar suas verdades. Na segunda-feira, a CNV publicou o depoimento do capitão reformado da Aeronáutica, Álvaro Moreira. Ele dá conta do corpo de Stuart Edgar Angel, desaparecido em maio de 1971, e que era membro do MR-8, um grupo guerrilheiro que lutava contra a ditadura. Segundo Moreira, o corpo de Stuart Angel, que era filho da famosa estilista Zuzu Angel, também morta por agentes da repressão, “foi enterrado na cabeceira da pista da Base Aérea de Santa Cruz, na zona oeste do Rio de Janeiro”.

 

Moreira afirmou que ouviu do sargento José do Nascimento Cabral, já morto, a forma como o corpo de Stuart Angel foi enterrado. Cabral era controlador de voo, na Base Aérea de Santa Cruz, e estava de plantão na noite do macabro enterro. Cabral relatou que recebeu um grupo de oficiais comandados pelo brigadeiro José Paulo Burnier, também falecido, que lhe ordenou que a pista fosse fechada para pousos e decolagens. Da torre, Cabral assistiu o enterro do corpo de Stuart. A CNV quer investigar e não descarta fazer escavações no local em busca dos restos mortais de Stuart. A jornalista Hildegard Angel, irmã de Stuart, disse que "enfim tenho informações objetivas sobre o paradeiro dos restos mortais do meu irmão".

Hildegard Angel disse ainda que “O que eu espero que eles (os militares) revelem a verdade e deem paz as famílias". A jornalista serve como porta voz das famílias que, passados cerca de 40 anos, ainda não puderam ter acesso a suas verdades. Na verdade, elas não devem esperar confissões oficiais de culpas. O que, de fato, elas esperam é que os corpos de seus parentes sejam finalmente encontrados para que se possa, por exemplo, se ter acesso a uma certidão de óbito. Enquanto as verdades lutam para vir à tona, o MPF ofereceu denuncia contra cinco militares reformados do Exército pelo homicídio e ocultação do cadáver do ex-deputado Rubens Paiva. O dado relevante disso é que se está buscando fazer justiça.

Mas, importa vermos que o MPF não limita sua atuação por causa da Lei da Anistia de 1979. Os procuradores afirmam que os crimes não prescreveram e não podem ser incluídos na Lei da Anistia porque se deram em uma situação de estado de exceção. Eles dizem que tínhamos uma situação de sistemático e generalizado ataque contra a população civil por um sistema semiclandestino de repressão política. O MPF afirma que os crimes podem ser tipificados como de lesa-pátria. O fato é que as verdades vieram à tona, mesmo que muitos não as queiram ouvir por não quererem que suas ilusões sejam destruídas, como diria Nietzsche. Já temos muitas verdades expostas. A questão é: com quantas delas conseguiremos conviver?

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AQUI É O POLITICANDO, COM GILBERGUES SANTOS, PARA A CAMPINA FM.

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Este foi um dos últimos artigos que publiquei: “SOMOS TODOS UM BANDO DE ARAMIS". Neste artigo analiso porque somos avessos à consolidação de nossa democracia. Discuto a contradição de praticarmos procedimentos democráticos enquanto cevamos um ancestral saudosismo de nosso passado ditatorial. Sugiro refletirmos sobre o paradoxo de parte da sociedade usar a liberdade de expressão para pedir um regime que pode acabar com ela. http://www.paraibaonline.com.br/colunista/santos/9920-somos-todos-um-bando-de-aramis---parte-i.html

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