segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

A VIOLÊNCIA NOSSA DE CADA DIA OU O CALIBRE DO PERIGO.



Eu acompanho as coisas de nossa cidade por força de meu trabalho e porque nela vivo com as pessoas que amo. Eu não faço favor algum em me preocupar com nosso estado de insegurança. Sendo um cidadão essa é minha obrigação. O cidadão tem o direito e o dever de saber o que se passa em sua volta. Mas, não me parece útil fixar na memória quantos homicídios já tivemos este ano em Campina Grande se não pudermos entender as motivações para eles.


Não adianta nos intitularmos “policiólogos”, “politólogos” ou “cientistas políticos”. Pouco adianta dizermos que somos especialistas em segurança pública se nos contentamos com os números circunstanciais que pesquisas do governo federal trazem. Adianta pouco sabermos que nossa polícia ficou em primeiro lugar, entre as de todo o país, quando o assunto é a resolução de crimes, se essa mesma instituição coercitiva não consegue prover a segurança do cidadão. Não basta ser eficiente na resolução do crime.


O que queremos é uma policia que atue na prevenção do crime. Precisamos que o bandido não entre em nossas casas. Sim, desejamos que ele seja preso após nos roubar. Mas, a prevenção ainda é a melhor política de segurança pública que se pode ter. A Secretaria de Segurança de Pernambuco tem bons resultados com o programa “Pacto pela Vida” porque investe em projetos de prevenção. Ao invés de esperar que o crime aconteça, a polícia de Pernambuco age na perspectiva de impedir que ele ocorra.


De muito pouco adianta o discurso enfurecido do Deputado Federal Major Fábio, ao saber que mais um policial militar foi assassinado por bandidos. Isso não vai resolver nossos problemas. Pelo contrário, só aumenta à revolta e a desesperança. Quando crimes brutais acontecem, como o assassinato do policial militar Janderson Pereira, o que se espera das autoridades e dos agentes públicos é uma atitude sensata no sentido de se buscar, pelo menos, descobrir as motivações para o crime.


Aliás, esse é nosso grande problema. Só nos preocupamos com o crime pelo crime. Não queremos saber os motivos que concorrem para que ele aconteça. Só nos preocupamos em contar quantos caixas eletrônicos são, por mês, explodidos. Se realmente se quer acabar com esse tipo de crime, porque não se investiga quem está lucrando para que ele ocorra? O roubo aos caixas eletrônicos movimenta o comercio ilegal de explosivos e gera divisas para outros tipos de crimes.


A maioria dos crimes possuem motivações pragmáticas e objetivas. Claro, o crime visa, em geral, o lucro. O roubo de carros e motos serve para abastecer a “indústria” dos desmanches que por sua vez abastece as oficinas. Se você, caro ouvinte, não se perturba em saber que uma peça que está sendo colocada em seu carro tem procedência ilegal, saiba que está contribuindo para que o crime ocorra. A regra é simples.  O carro é roubado e é repassado para o desmanche. Daí, as peças são atravessadas para oficinas cujos donos e clientes só pensam em maximizar ganhos e minimizar perdas, mesma que seja à custa da vida de alguém. Esse nosso jeito Macunaíma de ser ainda vai nos causar muitos danos.


Você se sente esperto demais por pagar menos da metade por um produto, mesmo que ele seja roubado? Se a resposta for sim, saiba que você contribui para o aumento da violência. O crime é uma empresa que visa o lucro e que age motivado por demandas. Porque será que o assalto violento a residências é uma das modalidades de crimes mais cometidos em Campina Grande? A resposta é simples: muita gente se dispõe a comprar eletrodomésticos e eletroeletrônicos roubados, sem nota fiscal.


Daí que se preocupar em resolver o crime quando ele já aconteceu não deixa de ser a política de enxugar gelo. Certo. Quando os crimes brutais ocorrem, queremos ver seus autores atrás das grades. Mas, isso impede que novos crimes ocorram? O que impede que o crime aconteça são políticas públicas de segurança, como as que se fazem em Pernambuco, interligadas com políticas públicas nas áreas de educação, saúde, moradia, etc.


E eu não estou falando dos assistencialismos de toda sorte. Eu não falo de coisas circunstanciais como mais armas, mais viaturas e mais presídios. Eu não falo de cada vez mais se usar mais a força.  Eu falo em pegar esta criança que está aí, agora, pedindo esmolas nos sinais da Avenida Canal e lhe dar cidadania. Eu falo em pararmos de enxugar gelo. Eu falo em entendermos de uma vez por todas que cercas eletrificadas, grades fortificadas, ferozes cães e guardas armadas são apenas paliativos cada vez mais ineficazes. Eu falo mesmo em pararmos de fingir que não temos nada haver com esse estado de coisas. Está na hora de atentarmos para o calibre do perigo, de onde ele vem e, principalmente, porque ele vem.


Você tem algo a dizer sobre essa COLUNA ou quer sugerir uma pauta? gilbergues@gmail.com

AQUI É O POLITICANDO, COM GILBERGUES SANTOS, PARA A CAMPINA FM.

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