DIRETAS JÁ!

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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

POBRE DE TI, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE.


Noite de natal. Enquanto as pessoas se confraternizavam, dois vândalos imbecis picharam a estátua de Carlos Drummond de Andrade. As câmeras da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, instaladas bem em frente a ela, registraram tudo. Drummond foi poeta, cronista, contista, tradutor, redator de jornais e revistas. Ele foi um artista da palavra. Ele escrevia sobre o amor, a vida e as relações entre as pessoas. Ele falava das coisas em sua volta e de nossa realidade social e política.

Drummond foi fundamental para que eu despertasse o gosto pela leitura. Não só isso. Por volta dos 15 anos de idade, eu coloquei na cabeça que seria escritor. Dai comecei, pobre de mim, a tentar imitá-lo escrevendo crônicas. Nessas desastrosas tentativas fui aprendendo a gostar de ler e de escrever. E fui admirando cada vez mais a obra de Drummond.  Vez por outra, para fugir da aridez da análise de nossa realidade política, busco refugio em suas crônicas e poemas. Sempre me divirto relendo uma coletânea de crônicas de Drummond chamada “70 historinhas”. Ele tinha um senso de humor inteligente, irônico, por vezes mal humorado. Ele foi mestre em observar a realidade para descrevê-la em palavras.

A estátua tantas vezes pichada é uma homenagem da prefeitura e do povo carioca a Drummond por ele ter adotado o Rio para viver e trabalhar. Ela foi colocada no mesmo banco onde Drummond costuma sentar para contemplar o mar, as pessoas e a vida.  Dessas contemplações saíram histórias fantásticas, como a crônica “Depois do Jantar”. Nela, ele descreve o caso de um assalto que, por certo presenciou, onde a vitima tenta negociar com o assaltante para que este não lhe leve um relógio.

A estátua fica no Calçadão de Copacabana. O mineiro Leo Santana a fez em bronze, do mesmo jeito que Drummond costuma sentar naquele banco, de pernas cruzadas e com a cabeça inclinada de forma que pudesse ver o mar e quem passasse pelo calçadão. Dois dias após sua instalação, em outubro de 2002, ela sofreu a primeira pichação. Os óculos, que tão bem caracterizavam Drummond, foram várias vezes roubados. Vândalos cariocas competem para ver quem se apropria da armação feita, também, em bronze. Em maio de 2012, depois do décimo ataque, a prefeitura do Rio instalou as câmeras que agora flagraram os dois vândalos patetas. Na ocasião, alguns comerciantes adotaram a estátua para dela cuidar, mas não funcionou como se pode perceber.

Aliás, eu não vou mais chamar essa gente de vândalos. Pois, os povos das tribos germânicas que invadiram o Império Romano no século V, depois de Cristo, eram chamados de bárbaros ou vândalos por lutarem contra a dita civilização romana. Aqueles que destroem ou arruínam bens públicos, obras de arte e objetos que servem a coletividade não passam de marginais e como tais devem ser tratados. Eu espero que o casal carioca fora da lei seja devidamente enquadrado. Boa forma de puni-los seria, primeiro, mandar que limpassem a sujeira que fizeram e, depois, obriga-los a ler toda a obra de Drummond como um cartaz, que já colocaram ao lado da estátua que dizia: “não roubem meus óculos, leiam meus livros”.

A estátua de Drummond foi pichada com uma tinta branca. As partes mais atingidas foram o rosto, o peito e as pernas. O que, afinal, move alguém a cometer um ato tão tolo? Qual o prazer que se sente ao se depredar uma estátua que mau nenhum causa? Isso tem haver com nossa histórica deseducação e com essa forma equivocada que temos de lidar com o que é público. É que nós fomos formados para não termos o sentimento de pertencimento ao que é de todos.

  
Achamos que o que é público não é de ninguém. Os marginais da depredação se acham no direito de fazer o que bem quiserem, pois a ideia corrente é que não se pode punir quem atingiu um bem que não pertenceria a ninguém. E temos que considerar que o depredador do bem público é um sociopata. É aquela pessoa desprovida de qualquer consciência ou senso moral. É o indivíduo que age motivado para agradar a si próprio, mesmo que isso perturbe outras pessoas. Também temos a ideia, errônea, que os bens do Estado não nos pertencem e por isso mesmo podem virar alvo de nossas revoltas. Ao contrário do que se possa imaginar, muita gente acha que ao se depredar um bem público se atinge o governo. Ledo engano.


Certa vez vi um homem quebrando um telefone público. Eu perguntei por que ele estava fazendo aquilo. Sabe o que ele me respondeu? “Se não é meu e nem é seu, eu posso quebrar”.  Ele me confessou que costuma quebrar telefones e outros bens públicos. Sua justificativa era pavorosa. Ele me disse que depredava bens públicos para forçar o governo a gastar o dinheiro dos impostos, que ele pagava, com o concerto. Assim, menos dinheiro iria para a corrupção. A lógica é tão chula que não merece nem ser discutida.


Drummond, onde quer que esteja, deve achar graça do que já fizeram com sua estátua, pois isso só confirma o que ele pensava acerca da natureza humana. Certa vez ele disse que: “O homem vangloria-se de ter imitado o vôo das aves com uma complicação técnica (o avião) que elas dispensam.”. Pobres de nós, pobres de ti, Carlos Drummond de Andrade.

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AQUI É O POLITICANDO, COM GILBERGUES SANTOS, PARA A CAMPINA FM.

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