quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A ANATOMIA DE UM DEBATE.

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Na terça-feira tivemos o primeiro debate do 2º turno entre Dilma e Aécio. Foi um embate com todos os ingredientes que a ocasião eleitoral pede e como a muito não víamos. Dilma e Aécio se enfrentaram com todas as armas ao alcance das mãos. Antes que o caro ouvinte pergunte eu vou logo dizer que não houve um vencedor. Tivemos, na verdade, um empate. Empate? Eu explico. É que o debate foi tão rico que os candidatos terminaram sendo bem expostos no que eles têm de bom e de ruim. Eu tinha uma boa expectativa quanto a esse debate e devo dizer que não me decepcionei. É que a TV Bandeirantes tem uma boa tradição em promover esse tipo de debate desde aqueles memoráveis embates entre os presidenciáveis de 1989.

Além do mais, era o primeiro debate com apenas dois candidatos, sem aquela poluição visual e sonora produzida por candidatos nanicos que não tem nada a acrescentar a não ser a exposição de opiniões racistas, homofóbicas e autoritárias. Ainda sobre o formato do debate, merece todos os elogios a sóbria mediação do jornalista Ricardo Boechat. Ao contrário de William Bonner, da Rede Globo, ele não quis ser a cereja do bolo. Pelo contrário, ele se limitou a mediar o debate. E vejam que Boechat não precisou repreender um dos candidatos como fez Bonner, atrevidamente, diga-se de passagem, naquele último debate do 1º turno. Boechat não pretendeu brilhar ou aparecer mais do que os candidatos.

O formato do debate, inclusive, não permitiu que Dilma e Aécio usassem aqueles subterfúgios marqueteiros para se pouparem de ataques. Eles foram jogados, literalmente, na arena onde foram à caça e o caçador ao mesmo tempo, o tempo todo. Dilma começou o debate comedida. Parecia que ela estava no Guia Eleitoral, pois foi repetindo mecanicamente a fala que diz que o PT tirou 32 milhões de pessoas da pobreza e criou um mercado de consumo de massa. Aécio começou o debate confiante se dizendo o candidato da mudança e que foi o PSDB quem promoveu a estabilidade da moeda. Em sua primeira fala, partiu para o ataque dizendo que os indicadores sociais pioraram no governo Dilma.















Cada candidato teve um conceito que norteou sua participação no debate. A palavra chave do discurso de Dilma foi "inclusão social". Para Aécio, a palavra chave foi "mudança". Inclusão para Dilma, claro, é sinônimo de programas sociais. Aécio apresentou uma contradição em seu discurso mudancista que Dilma poderia até ter explorado. É que Aécio propõe a mudança numa volta ao passado, aos tempos do governo de FHC, que ele tem como uma espécie de bússola.  Com sua habitual gagueira, que às vezes passa por insegurança, Dilma foi à luta e passou a enfrentar Aécio, até porque não tinha outra alternativa. A estratégia deu certo, pois na 2ª metade do debate Aécio assumiu uma postura defensiva, quase vacilante.

Aécio acusou Dilma de não reconhecer os bons feitos dos governos do PSDB em nível federal e estadual. Isso de fato ocorre. É que o PT costuma agir como se o primeiro governo de Lula fosse o marco zero de tudo de bom que já tivemos. Aécio admitiu, mas nem tanto. Ele aceitou que o Brasil melhorou no governo Lula e reconheceu o valor dos programas sociais do PT. Mas, ele fez questão de dizer que a origem desses programas está nos governos de FHC. Assim, Dilma e Aécio ficaram matraqueando sobre o DNA do “Bolsa Família”. Dilma dizia que o programa foi criado e ampliado nos governos do PT e Aécio dizia que os verdadeiros pais do “Bolsa Família” são FHC e sua esposa Ruth Cardoso.

Querendo valorizar o governo que lhe inspira, Aécio disse que: “o maior programa de transferência de renda não foi o Bolsa Família e sim o Plano Real”. Mais uma vez, Dilma não contra-atacou, pois o Plano Real trata, claro, de estabilidade econômica. Onde Dilma foi melhor foi na exposição da administração dos governos do PSDB em Minas Gerais. Aécio tem um discurso bem construído em torno da eficiência da gestão tucana, Dilma mostrou dados do TCE mineira desmontando este discurso. Onde Aécio foi melhor foi na exposição dos problemas econômicos que enfrentamos em relação à queda do PIB e da alta da inflação. Ele citou a frase do assessor de Dilma que propôs aos brasileiros trocarem a carne pelo ovo para conter a alta de preços.

Dilma ficou na defensiva, mas ao citar Armínio Fraga, ministro de FHC que deixou a inflação escapar acima da meta por dois anos, ela pode se contrapor. Na verdade, quando o assunto é política econômica, PT e PSDB são bem parecidos. Como Aécio é parlamentar experiente é natural que se sinta mais a vontade no debate. Já Dilma tem experiência administrativa, ela é mais prática do que teórica. Aécio transmite certa sensação de firmeza, às vezes escapando para a agressão. Dilma ainda precisa se acostumar mais e melhor com os debates, mas ela detém os números de uma administração de quase 12 anos. O debate Dilma/Aécio foi um grande FLA X FLU de muitos gols, mas que terminou empatado. Sabe quem vai desempatar esse jogo? É você, caro ouvinte, que ainda está indeciso.

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AQUI É O POLITICANDO, COM GILBERGUES SANTOS, PARA A CAMPINA FM.

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Este foi um dos últimos artigos que publiquei: “SOMOS TODOS UM BANDO DE ARAMIS". Neste artigo analiso porque somos avessos à consolidação de nossa democracia. Discuto a contradição de praticarmos procedimentos democráticos enquanto cevamos um ancestral saudosismo de nosso passado ditatorial. Sugiro refletirmos sobre o paradoxo de parte da sociedade usar a liberdade de expressão para pedir um regime que pode acabar com ela. http://www.paraibaonline.com.br/colunista/santos/9920-somos-todos-um-bando-de-aramis---parte-i.html

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