sexta-feira, 10 de outubro de 2014

E O MEU APOIO VAI PARA...

Em uma de suas mais famosas composições Noel Rosa dizia: “Pois esta vida não está sopa e eu pergunto com que roupa? Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?”. “Com que roupa?”, lançada em 1930, deu a Noel a notoriedade merecida. Na canção, o “Poeta da Vila” falava da precariedade da vida que levava. Dizia ele: “Meu terno já virou estopa, e eu nem sei mais com que roupa eu vou pro samba que você me convidou?”. Com o passar do tempo, a história de Noel ganhou outros significados. Durante muito tempo, no Brasil, se usava a expressão “com que roupa” para se demonstrar dificuldades materiais para se entrar em um negócio, para adquirir algum bem, para participar de uma aposta ou mesmo para a realização de um casamento.

Na política não era diferente. Quando um político, ou um partido, não conseguiam reunir as condições necessárias para ganhar uma eleição ou para realizar uma composição ou aliança logo se dizia: “mas, com que roupa?”. Conta-se que, entre as décadas de 40 e 50 do século XX, Getúlio Vargas costuma perguntar “com que roupa?” a todos aqueles políticos que lhe procuravam para pedir apoio para que pudessem disputar uma eleição. Estamos vendo, agora, a reordenação das alianças políticas, visando às eleições do 2º turno para o governo da Paraíba e para a Presidência da República. Acompanhei durante a semana a movimentação política e vi algo interessante.

Dilma e Aécio, em nível nacional, e Cássio e Ricardo, na Paraíba, trabalharam arduamente, desde o fim das apurações no domingo passado, buscando recompor suas bases de campanha. A luta se deu em torno de cooptar os derrotados do 1º turno. Algo interessante, até engraçado, é que tem partidos e atores políticos que querem emprestar apoio, mas não podem, e tem os que até podem, mas não querem. Muitos se perguntam “com que roupa?” devem ir ao samba dos candidatos do 2º turno. Por roupa, o caro ouvinte pode entender cargos, favores, acordos futuros e até mesmo alguns punhados do vil metal, como poderia dizer Noel Rosa. A essa altura do campeonato ninguém dá ou empresta apoio a candidato nenhum.
 
Façamos o levantamento dos apoios que os candidatos, que vão ao 2º turno, já arrecadaram. Isso importa na medida em que a eleição se resolverá pelos valores que cada candidato conseguir agregar ao capital eleitoral amealhado no 1º turno. É que na campanha do 2º turno os candidatos não partem do zero absoluto. Vencerá a eleição aquele que conseguir somar mais votos e apoios ao que pode obter na votação do domingo passado. A votação obtida no 1º turno pode ser até mesmo um patrimônio. Considera-se que os 43 milhões de eleitores que votaram em Dilma e os 34 milhões que votaram em Aécio não mudarão de opinião no próximo dia 26 de outubro. Para Dilma importa não perder nada e torcer para que Aécio não cresça.

Aécio tem que somar, ao seu capital eleitoral do 1º turno, algo entre 9 e 10 milhões de votos e torcer para que Dilma não cresça. Por isso, ele foi atrás da nanicada que não lhe criou problemas no 1º turno. Eduardo Jorge, o nanico verde que diz não ter nada haver com nada, foi o primeiro. Ele disse que apoia Aécio sem pedir nada em troca. Será? Eduardo Jorge não pediu nem uma ciclovia? O Pastor Everaldo foi o segundo a declarar apoio a Aécio. Nenhuma novidade, se lembrarmos como eles se irmanavam nos debates do 1º turno. Eymael foi outro que declarou apoio a Aécio. Esse não deve ter expectativas entre querer e poder, pois se limitou a lançar uma nota de apoio. Estes três nanicos somaram, no 1º turno, quase 1,5 milhão de votos. É pouco e não resolve o problema de Aécio.

Ainda tem o Levy Fidelix. Mas, com aquela homofobia raivosa e pedindo a volta da ditadura militar, ele não vai conseguir apoiar ninguém, mesmo que peça de joelhos. Aécio busca ansiosamente o apoio de Marina Silva e do PSB. Essa tem roupa, digo votos, suficientes para apoiar Aécio. A metade dos 22 milhões de votos de Marina resolveriam todos os dilemas de Aécio. Mas, as indecisões e contradições de Marina impedem uma clara definição. Ao contrário de Pastor Everaldo, Marina pode apoiar, resta saber se ela quer. Ela disse que apoia Aécio se ele se comprometer com o fim da reeleição, se der uma guinada à centro-esquerda e se comprometer com o desenvolvimento sustentável. Aécio disse que quer o apoio de Marina, mas que não abre mão de suas ideias. Ou seja, Marina elevou o preço da fatura para que Aécio não tenha como compra-la.

O PSB apoia Aécio, mas não sabe o que fazer com Marina. O Rede Sustentabilidade, marinado e peneirado como ele só, definiu que seus militantes podem votar nulo, branco ou em Aécio. Ou seja, os marineiros armaram a rede em cima do muro. Dilma andou pelo Nordeste esta semana regando os votos que teve no 1º turno, sem esperar muito da nanicada de esquerda. Luciana Genro sugeriu o voto em branco, nulo ou em Dilma e "desaconselhou" o voto em Aécio Neves. Nenhuma surpresa. Aécio deve buscar votos e apoios no atacado e no varejo. Dilma não quer maiores alterações e lutará para manter a diferença sobre Aécio. Os dois sabem com que roupa devem chegar ao 2º turno. Resta saber se os seus aliados também sabem.

Você tem algo a dizer sobre essa COLUNA ou quer sugerir uma pauta? gilbergues@gmail.com

AQUI É O POLITICANDO, COM GILBERGUES SANTOS, PARA A CAMPINA FM.

Um comentário:

Francisco virgulino disse...

Caro Gilbergues, isso parece mais um samba de crioulo doido...rsrsrs

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Este foi um dos últimos artigos que publiquei: “SOMOS TODOS UM BANDO DE ARAMIS". Neste artigo analiso porque somos avessos à consolidação de nossa democracia. Discuto a contradição de praticarmos procedimentos democráticos enquanto cevamos um ancestral saudosismo de nosso passado ditatorial. Sugiro refletirmos sobre o paradoxo de parte da sociedade usar a liberdade de expressão para pedir um regime que pode acabar com ela. http://www.paraibaonline.com.br/colunista/santos/9920-somos-todos-um-bando-de-aramis---parte-i.html

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